Editorial

Maria Helena Leite Hunziker

Resumen


            Nas sempre estimulantes trocas de email com o Emílio (Ribes Iñesta), surgiu uma conversa sobre os rumos atuais da Análise do Comportamento (AC). Esse assunto foi inspirado por um texto do João Bosco Jardim, que iniciava sua análise por um comentário do Skinner: “Depois de tantos anos, por que ainda somos tão poucos? ”. O João Bosco e o Emílio deram respostas diferentes a essa questão. Isso nos sugeriu a importância de confrontarmos diferentes olhares críticos sobre a nossa ciência, tanto em relação aos seus aspectos teórico, prático e ético, como à sua linguagem e validade interna/externa.  O Emílio idealizou, então, uma publicação especial da revista Acta Comportamentalia abordando essa análise crítica da área.  A seu convite, coordenei os contatos com analistas do comportamento de diferentes países, pedindo a eles que discorressem sobre um ou mais aspectos da questão proposta.

            Como fruto desse empreendimento, são apresentados aqui seis artigos bastante diferentes entre si.  Luis Valero Aguayo, da Espanha, destaca a importância da investigação translacional, que estabelece uma ponte entre a pesquisa básica de laboratório e  a aplicação clínica, e faz  sugestões de mudanças nesse tipo de pesquisa como forma de fortalecer a área. Telmo Eduardo Peña Correal, da Colômbia, analisa o isolamento da AC que permite ao cognitivismo e às neurociências preencher espaços não ocupados por ela.  Ele destaca a existência de críticas “de dentro” da abordagem relativas à insuficiência dos conceitos teóricos, o abismo entre a análise experimental e a aplicada, as diferenças entre comportamento animal e humano, entre outras. Anna Bianca Prevedini e Davide Carnevali analisam que, na Itália, a AC se estabeleceu com forte ênfase na aplicação clínica.  São presentados quatro modelos de intervenção analítico comportamental em uso atualmente naquele país, destacando as origens e características de cada modelo. João Cláudio Todorov, do Brasil, aponta que além do isolamento da AC frente a outras psicologias, há também isolamentos internos de grupos que abrigam comunidades verbais distintas, que pouco se comunicam entre si. Ele aponta a importância da unificação desses grupos como forma de promover o desenvolvimento da AC como um todo. Júlio César de Rose, também do Brasil, destaca que apenas recentemente a AC passou a se dedicar ao estudo de fenômenos culturais, o que pode aumentar sua abrangência e comunicação com outras ciências. Porém ele critica o fato de que essa análise tem ficado restrita aos processos operantes, sugerindo que sejam  incorporados os processos respondentes e de formação de redes simbólicas, essenciais para se compreender as práticas culturais. Por fim, do México, Emílio Ribes Iñesta analisa a história da vinculação da AC com o behaviorismo radical e a teoria operante, mostrando que esses termos não são equivalentes nem intercambiáveis. Ele aponta que a AC se mostra atualmente como uma abordagem híbrida decorrente de cruzamentos conceituais.

            Esperamos que essa multiplicidade de olhares ajude o leitor a refletir criticamente sobre o momento atual da AC, propiciando a revisão de aspectos teóricos/conceituais/aplicados que se mostrem insatisfatórios. A crítica interna pode possibilitar ajustes que favoreçam o desenvolvimento mais sólido da área, além de maior intercâmbio com outras ciências. 


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